é preciso parar de amplificar e fazer proliferar essa tristeza política, afetos passivos e tristes. é preciso parar de ceder espaço ao trabalho subterrâneo do ressentimento e do reativo. é preciso superar esse gosto amargo, de derrota, de solidão.é ainda preciso buscar uma alegria grave, minoritária e combativa. precisamos parar de amplificar o que nos silencia. é preciso proliferar os relatos minoritários, marginalizados, silenciados. é preciso fazer crescer e amplificar os relatos que vêm de baixo. é preciso perguntar pelo saber da experiência daqueles que primeiro sofreram os efeitos do poder. é preciso reativar e amplificar o saber e a memória das lutas. é preciso que paremos de pensar a nós mesmos com as categorias e nos parâmetros que vêm de fora, que vêm de quem quer que dissolvamos nossas composições de luta. é preciso que paremos de pensar a nós mesmos através de categorias disciplinadoras.
estamos fazendo uso de uma máquina de amplificação e repetição. mas esse dispositivo não é neutro, ele têm nós e engrenagens que favorecem a difusão de um certo tipo de informação e a produção de um certo tipo de pensamento. e essa ferramenta, talvez por sua estrutura, tem fugido aos fins que gostaríamos de dar a ela. ela tem servido à amplificação de discursos reacionários, e todo o tipo de micro-fascismo. através dela, a reação se capilarizou, adentrou zonas subjetivas e políticas realmente ínfimas, de forma eficaz e veloz, na forma de um contágio reacionário, tão repentino quanto avassalador. símbolos e mensagens contestatárias rapidamente foram apropriadas, na veiculação de mensagens fascistas. as redes sociais tornaram-se também ferramentas de captura desde "baixo", isto é, desde os receptores das mensagens das grandes mídias. a reiteração, a retroação, a mensagem que vai do um ao múltiplo, e que retorna do múltiplo ao um. a rede social, agente multiplicador, expansivo e potencialmente horizontal, rizomático, viral pode também operar também em uma lógica piramidal, arbórea, na homogeneização, no confisco, na disciplinarização e ordenação autoritária das múltiplas vozes. estamos vivendo um revés: o facebook é uma grande árvore -onde emergem alguns focos rizomáticos, plurais ou dissidentes, mas onde ecoa o uníssono. o uníssono que agora se reproduz de ponto em ponto dessa enorme rede arborizada é o do civismo nacionalista, chauvinista, e violentamente pacifista, i.e., mascarador do conflito e da luta social (ao estilo das fórmula orwellianas do "ministério da verdade", ao estilo "guerra é paz", "liberdade é escravidão"; ou ainda: "movimento social é crime", "luta política é vandalismo", etc). além disso, há no uso desse tipo de rede social um imponderável para todo uso contestatário que podemos fazer dela: monitoramento, censura, bloqueio e silenciamento. amigos que tiverem perfis cancelados ou bloqueados. trata-se de intervenção direta de mecanismos de censura que nos escapam. trata-se do controle incontrolável do relato, trata-se de reconduzir o múltiplo ao um, o desviante à ordem, o perigoso ao dócil. trata-se de produzir um ponto de vista que se amplifique, construir a ossatura de um pensamento a partir de oposições esclarecedoras, no sentido de separar o joio do trigo: os "bons" e os "maus" manifestantes, os "pacíficos" e os "vândalos", os "cívicos" e os "baderneiros". por outro lado, na medida em que proliferam essas coordenadas dicotômicas - essa forma - amalgamadas com toda a informação - ou conteúdo - que se discute, também são acionados mecanismos de indiferenciação, de redução ao mesmo, de dissolução de matizes, de eliminação do minoritário, da diferença: "somos todos um", "temos uma mesma causa", "queremos paz e um país melhor", "o gigante acordou". dentre esses mecanismos está aquele da dissolução do par direita e esquerda como coordenadas de pensamento e ação não mais aplicáveis a nossa conjuntura (quando, na verdade, o que havia de novo era exatamente a forma potente de compor e agenciar a esquerda). junto com essa dissolução, se opera uma censura branca, através do silenciamento, do tornar excepcional e desviante em relação à régua normal da "grande festa cívica e nacional que tomou as ruas": a desvalorização e desclassificação das demandas de baixo, i.e., das ações e da participação de quem está à margem das demandas pacificatórias e nacionalistas da classe média, o pobre, o periférico, o divergente, o excluído - em suma, para usar a velha linguagem marxista: o silenciamento do proletariado e, principalmente, do lumpenproletariado. ou seja, o silenciamento das demandas de quem vive em apartheid social, para quem a exclusão social está materializada na cidade, quem é diretamente afetado pelas políticas de transporte, pelas remoções forçadas, pelo tratamento de choque pelo estado e pela polícia. calar o pobre, o negro, o índio, o drogado. somar forças do "Movimento" na grande limpeza biopolítica de nossas ruas - e da sociedade como um todo - de toda a presença perturbadora e esfarrapada, lutar pela saúde da população contra seus focos infecciosos. eis que a rede social passou a operar no sentido "omnes et singulatim": assegurar e reproduzir o poder e o controle sobre a totalidade múltipla e sobre cada um, individualmente. a multiplicação da demanda unificadora: a capilarização da exigência do um, a penetração subjetiva e infinitesimal do poder que se exerce sobre a população, o cidadão como policial, o homem como imagem do estado: desde há muito uma "utopia" fascista. o que temos agora são os indivíduos engajados no controle e nas medidas sobre a população, e as classificações, bem como as sanções normalizadoras operadas por setores reacionários, pela grande mídia e pelo estado, agora partem desde o próprio corpo da população. no entanto, esse corpo é múltiplo, o pode se fazer ingovernável. é necessário destituir esse corpo de sua imagem de gigante que acorda.
Para a grande mídia, tudo foi visto até então pela lógica da
falta: faltou-nos, na verdade, tudo o que negamos, tudo que não somos. Faltou,
na visão deles, que fôssemos o que não somos, que fôssemos mais parecidos com o
que queremos negar. Primeiro, faltou-nos clareza, autorização, liderança,
pauta. Faltou-nos protestar contra a corrupção, faltou-nos pacifismo,
faltou-nos repetir os anos noventa, faltou-nos maturidade política,
faltaram-nos motivos, faltou-nos legitimidade, faltou-nos nacionalismo, faltaram
reivindicações contra “fuga de capital, inflação, juros e dólar em alta”. São
discursos que querem produzir a ficção da falta na multidão abundante, querem
fazer surgir o vazio onde há o excesso impiedoso. São discursos que querem
produzir em nós a reação, gestar na matéria da contestação a reação. Discursos
que querem produzir em nós a lógica do ressentimento, os afetos tristes, a servidão,
o reativo. Mas, a nós faltou e falta valor. E faltou-nos rosto.
Será que não entendem – que o que nos falta é o que negamos?
Que é o que não queremos? Espero que esse discurso perverso e devastador não
nos incite a suprir tudo o que, para eles, falta em nós. Pois o que, para eles,
falta em nós é o que eles mesmos são, e a manutenção das estruturas e
interesses que são os seus. O que para eles falta em nós são as doenças do
poder, da dominação e do capital das quais eles mesmos padecem, e que eles
mesmos entendem como saúde.
Espero que não sejamos convencidos dessa falta, pois há o
sério risco de que isso nos leve ao que, em nós, falta para que nos tornemos
eles, que nos acusam da falta. Que os novos olhares que surgem ao nosso redor nas
ruas e que as olham pela primeira vez – chorosos pelo gás - não busquem encontrar
nelas o vazio, mas o que nos faz transbordar. Que não busquem responder a uma
instância avaliadora externa e reacionária pelo que nos falta, oferecendo a ela
provas e preenchendo os vazios que ela vê em nós, mas que sigam realizando a
abundância que já somos.