Para a grande mídia, tudo foi visto até então pela lógica da
falta: faltou-nos, na verdade, tudo o que negamos, tudo que não somos. Faltou,
na visão deles, que fôssemos o que não somos, que fôssemos mais parecidos com o
que queremos negar. Primeiro, faltou-nos clareza, autorização, liderança,
pauta. Faltou-nos protestar contra a corrupção, faltou-nos pacifismo,
faltou-nos repetir os anos noventa, faltou-nos maturidade política,
faltaram-nos motivos, faltou-nos legitimidade, faltou-nos nacionalismo, faltaram
reivindicações contra “fuga de capital, inflação, juros e dólar em alta”. São
discursos que querem produzir a ficção da falta na multidão abundante, querem
fazer surgir o vazio onde há o excesso impiedoso. São discursos que querem
produzir em nós a reação, gestar na matéria da contestação a reação. Discursos
que querem produzir em nós a lógica do ressentimento, os afetos tristes, a servidão,
o reativo. Mas, a nós faltou e falta valor. E faltou-nos rosto.
Será que não entendem – que o que nos falta é o que negamos?
Que é o que não queremos? Espero que esse discurso perverso e devastador não
nos incite a suprir tudo o que, para eles, falta em nós. Pois o que, para eles,
falta em nós é o que eles mesmos são, e a manutenção das estruturas e
interesses que são os seus. O que para eles falta em nós são as doenças do
poder, da dominação e do capital das quais eles mesmos padecem, e que eles
mesmos entendem como saúde.
Espero que não sejamos convencidos dessa falta, pois há o
sério risco de que isso nos leve ao que, em nós, falta para que nos tornemos
eles, que nos acusam da falta. Que os novos olhares que surgem ao nosso redor nas
ruas e que as olham pela primeira vez – chorosos pelo gás - não busquem encontrar
nelas o vazio, mas o que nos faz transbordar. Que não busquem responder a uma
instância avaliadora externa e reacionária pelo que nos falta, oferecendo a ela
provas e preenchendo os vazios que ela vê em nós, mas que sigam realizando a
abundância que já somos.
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