energeia/liberamultitudo

segunda-feira, 24 de junho de 2013

 
estamos fazendo uso de uma máquina de amplificação e repetição. mas esse dispositivo não é neutro, ele têm nós e engrenagens que favorecem a difusão de um certo tipo de informação e a produção de um certo tipo de pensamento. e essa ferramenta, talvez por sua estrutura, tem fugido aos fins que gostaríamos de dar a ela. ela tem servido à amplificação de discursos reacionários, e todo o tipo de micro-fascismo. através dela, a reação se capilarizou, adentrou zonas subjetivas e políticas realmente ínfimas, de forma eficaz e veloz, na forma de um contágio reacionário, tão repentino quanto avassalador. símbolos e mensagens contestatárias rapidamente foram apropriadas, na veiculação de mensagens fascistas. as redes sociais tornaram-se também ferramentas de captura desde "baixo", isto é, desde os receptores das mensagens das grandes mídias. a reiteração, a retroação, a mensagem que vai do um ao múltiplo, e que retorna do múltiplo ao um. a rede social, agente multiplicador, expansivo e potencialmente horizontal, rizomático, viral pode também operar também em uma lógica piramidal, arbórea, na homogeneização, no confisco, na disciplinarização e ordenação autoritária das múltiplas vozes. estamos vivendo um revés: o facebook é uma grande árvore -onde emergem alguns focos rizomáticos, plurais ou dissidentes, mas onde ecoa o uníssono. o uníssono que agora se reproduz de ponto em ponto dessa enorme rede arborizada é o do civismo nacionalista, chauvinista, e violentamente pacifista, i.e., mascarador do conflito e da luta social (ao estilo das fórmula orwellianas do "ministério da verdade", ao estilo "guerra é paz", "liberdade é escravidão"; ou ainda: "movimento social é crime", "luta política é vandalismo", etc). além disso, há no uso desse tipo de rede social um imponderável para todo uso contestatário que podemos fazer dela: monitoramento, censura, bloqueio e silenciamento. amigos que tiverem perfis cancelados ou bloqueados. trata-se de intervenção direta de mecanismos de censura que nos escapam. trata-se do controle incontrolável do relato, trata-se de reconduzir o múltiplo ao um, o desviante à ordem, o perigoso ao dócil. trata-se de produzir um ponto de vista que se amplifique, construir a ossatura de um pensamento a partir de oposições esclarecedoras, no sentido de separar o joio do trigo: os "bons" e os "maus" manifestantes, os "pacíficos" e os "vândalos", os "cívicos" e os "baderneiros". por outro lado, na medida em que proliferam essas coordenadas dicotômicas - essa forma - amalgamadas com toda a informação - ou conteúdo - que se discute, também são acionados mecanismos de indiferenciação, de redução ao mesmo, de dissolução de matizes, de eliminação do minoritário, da diferença: "somos todos um", "temos uma mesma causa", "queremos paz e um país melhor", "o gigante acordou". dentre esses mecanismos está aquele da dissolução do par direita e esquerda como coordenadas de pensamento e ação não mais aplicáveis a nossa conjuntura (quando, na verdade, o que havia de novo era exatamente a forma potente de compor e agenciar a esquerda). junto com essa dissolução, se opera uma censura branca, através do silenciamento, do tornar excepcional e desviante em relação à régua normal da "grande festa cívica e nacional que tomou as ruas": a desvalorização e desclassificação das demandas de baixo, i.e., das ações e da participação de quem está à margem das demandas pacificatórias e nacionalistas da classe média, o pobre, o periférico, o divergente, o excluído - em suma, para usar a velha linguagem marxista: o silenciamento do proletariado e, principalmente, do lumpenproletariado. ou seja, o silenciamento das demandas de quem vive em apartheid social, para quem a exclusão social está materializada na cidade, quem é diretamente afetado pelas políticas de transporte, pelas remoções forçadas, pelo tratamento de choque pelo estado e pela polícia. calar o pobre, o negro, o índio, o drogado. somar forças do "Movimento" na grande limpeza biopolítica de nossas ruas - e da sociedade como um todo - de toda a presença perturbadora e esfarrapada, lutar pela saúde da população contra seus focos infecciosos. eis que a rede social passou a operar no sentido "omnes et singulatim": assegurar e reproduzir o poder e o controle sobre a totalidade múltipla e sobre cada um, individualmente. a multiplicação da demanda unificadora: a capilarização da exigência do um, a penetração subjetiva e infinitesimal do poder que se exerce sobre a população, o cidadão como policial, o homem como imagem do estado: desde há muito uma "utopia" fascista. o que temos agora são os indivíduos engajados no controle e nas medidas sobre a população, e as classificações, bem como as sanções normalizadoras operadas por setores reacionários, pela grande mídia e pelo estado, agora partem desde o próprio corpo da população. no entanto, esse corpo é múltiplo, o pode se fazer ingovernável. é necessário destituir esse corpo de sua imagem de gigante que acorda.

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